segunda-feira, 19 de agosto de 2013

ENTRE NÓS...


                Certa vez, dando aula para alunos de 5ª série ou 6ª série  em salas de aula do bairro do Caju, pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, vivi, dentre muitos,  um momento que nunca me sai da cabeça. Vira e mexe, essas lembranças me confirmam o quanto a minha primeira e principal, eu diria até hoje, referência pedagógica, foi aprendida em família.
                Meu objetivo na aula era construir com os alunos o conceito de poesia. A poesia que não está unicamente nos poemas, mas aquela que surge quando nos tocamos com algum conteúdo, em forma de poema ou de prosa, escrita ou oral, plástica ou dinâmica, como nos acontecimentos da vida.
                Disse aos alunos algo mais ou menos assim:
                 Vivemos a vida e realizamos coisas. Feitos. Como os heróis das histórias. Esses feitos mudam o curso da história, mostram a coragem do herói pelo enfrentamento direto dos conflitos que impedem as conquistas da vida. Revelam sabedoria para identificar pessoas e caminhos que devem e não devem ser seguidos. Evidenciam a determinação por fazer o seu melhor, quase sempre irradiando esse bem para muitas pessoas, além de si próprio.
                O herói é altruísta, dedicado e faz o seu melhor não só pra si, mas para muitos. Disse também que era possível transformar a própria vida em poesia. Um caminho para essa realização é dedicar-se com o coração a todas as coisas que realiza.
                Como exemplo de construção poética, eu citei  minha mãe, meu pai e seus feitos. (Meus alunos não tinham e ainda não têm muitas histórias de pai e mãe e de poesia pedagógica assim pra contar. ) Eu não tinha planejado citar este exemplo. Até aquele momento eu não havia concebido assim essas relações entre vida e poesia em família.
                Eles compuseram sete poesias. Cada uma de um jeito, com rimas próprias, ritmos diferentes, cadências bem peculiares, mas todas tinham a marca de uma poética, um modo de fazer poesia, que até hoje se mostra nova, ética, amorosa, referência.
                Até hoje, eu já com 49, corrigimos os versos de nossa própria construção poética, cada um dos sete, a sua, com base nessa referência primeira e principal. Claro que todo feito traz também ônus. Mesmo assim, aprendemos fácil que, mesmo estes são um ponto de impulsão para buscar o novo melhor de dentro, mais do que de fora.
                Nós sete somos a poesia que Maneco e Judith puderam compor. Nós somos o processo e o resultado de um investimento do coração. Disciplina, constância, amorosidade, perdão, decisão, escuta, exemplo, conselhos, ponderação, história.
                Não parou nos sete, outras poesias foram nascendo partindo das primeiras poesias,  com traços de uma mesma poética.
CRIAÇÃO

POESIA
ATITUDE
INTEGRIDADE
MATERNIDADE
AMOROSIDADE
PERSEVERANÇA

                Não é possível saber o quanto o outro capta do que dizemos.  Lembro bem que toda a turma foi escutando aos poucos até ficarem totalmente voltadas para essas minhas palavras, que por alguns segundos me pareceu serem elas a  minha própria forma e conteúdo poético. A minha forma de criação poética da vida. Autobiografia.
                Esses dois seres, vindos do interior do Estado do Rio, guardam uma grandiosa capacidade de criar fundamentação para uma vida que se constitui de dentro pra fora, como base para as conquistas materiais, sem perder o foco na integridade, na coragem de buscar sempre o caminho limpo, ético, honesto.  Nem mesmo os erros nos fazem esquecer os pontos de retomada desse caminho.
                Tenho vontade de criar um mutirão-família para recuperamos as histórias daqueles que, na sua própria configuração poética, compuseram as poesias Maneco e Judith. Tenho vontade de uma investigação poética sobre nossas origens.
                Nossas escritas podem ser o marco zero dessa caminhada investigativa... Quem sabe?
                Não quero encerrar este primeiro ensaio de escrita sem antes revelar uma espécie de prosa  poética, talvez, sobre minha infância entre livros e leituras, o que para todos nós representou uma das principais marcas dos modos de fundamentação poética realizados por Maneco e Judith. Meu pai ofertando a biblioteca. Minha mãe criando condições de investimento, respeitando os tempo de estudo:
                Se rirem, eu vou dar piti. Vou logo avisando...
                É bom dizer que Daniel tem muito a ver com muitos títulos que vou citar. De algum modo já disse a ele que é, depois de meu pai talvez, na infância e adolescência, a maior referência de leitor que logo quis copiar. Meu pai oferecia os livros, Daniel lia. Lia muito. Outros títulos, novos títulos... Eu iniciei meus investimentos de leitura mais espontânea seguindo os caminhos do Daniel. Me dei bem!! Acho.
                É bom dizer que este escrito tem tudo a ver com minhas neurinhas de infância... ( Será que só de infância? Rsrsrsr). Tava meio P da vida.  Isso depois de assistir a uma palestra maravilhosa de uma escritora famosa, relatando suas histórias felizes de leitura na infância.
                Comigo não foi assim. Sei que não foi pra muitas pessoas. Ler nunca foi fácil. Não era à toa que meu pai dizia pra mim, com o livro  Helena, de Machado de Assis, nas mãos: Leia!!! Leia!!! Não podia me dar pra ler um livrinho menos chato? Com menos excesso de descrição... Ficava horas tentando avançar páginas sobre detalhes, sempre menos importantes que os fatos mais legais de um romance... Era o que compreendia à época.  Como ler poderia ser tão bom assim desde  sempre? Tinha alguma coisa estranha naquelas palavras de Ana Maria Machado...
                Escrevi assim lá no início dos anos 2000:
            Nunca li muito. Os autores a que fui apresentada, não os amei de primeira.  Meu pai, homem simples, comprou para os seus sete várias coleções: Machado de Assis, Tesouro da Juventude, Delta Larrousse, Delta Junior, Caldas Aulete, História Geral e do Brasil, Ciências Naturais, Contos, outras. Esses livros li pouco. Aos doze ele tentou me persuadir: Menina, leia! Helena! Machado!  Não gostei. Na escola, certa vez, Júlio Verne introduzido pela goela abaixo. Não gostei.
Do que gostava? Respondo. Hoje sei. Lia os olhares, os movimentos, as palavras, meu silêncio, o seu silêncio, os excessos, a escassez, a voz, o tom, a beleza, a feiúra, os jacarés nas paredes do meu quarto em noites escuras, o medo, o aconchego de mãe, as brincadeiras de pai, os gritos, a música, a cor, as limitações, alguns livros... Agatha Cristhie. Meu irmão gostava... Era chato, no início. Depois... Hercule Poirot. Ainda hoje estudo pra descobrir... quem é o assassino? Aos poucos, outros foram chegando: Sidney Sheldon, Danielle Steel, Herman Hesse, Gibran, Kundera, Richard Bach, Oswald, Clarice, Drummond, Mário, outros. Com insistência. Gostava mesmo era de ouvir tudo e todos. Pouco falava, mais ouvia e via, por dentro. Assim fazia sem o saber. Até hoje. Sei.
Assim fui lendo. Lia o que vinha escrito nas pessoas, nos objetos, nas ações, nos livros. Hoje sou leitora consagrada? Estudada. Apta? Sim. Apta. Leio crianças, adolescentes, adultos. Procurando compreendê-los nos livros e fora deles. Percebo as ressonâncias do discurso falso de que se ensina a ler, reconheço o martírio: ler é necessário, vamos! Leia! Responda às perguntas! Como você não entendeu? Onde está com a cabeça? Eu sei, responderia. Sua cabeça está provavelmente nas estrelas, observando-as; nos olhares; nas ausências; nas cores; no beijo; na dor; na vida; além do óbvio. Perguntaria: Você ainda não leu?